12 novembro 2007

A primeira vez a gente nunca esquece

Minha mãe me disse que aos três anos, repetida vezes, eu segurava um livro de ponta-cabeça e fingia o estar lendo, enquanto — literalmente — marchava pela casa produzindo estranhos e indecifráveis ruídos com a boca. E isso tudo vestido apenas com uma fralda descartável e com um par de sandalinhas de couro, conhecidas como alpargatas [ ou percatas, como dizia meu pai. Caso não saiba o que são alpargatas, procure no google ].

Analisando este fato sob o foco da razão atual, só posso chegar à conclusão de que este ato performático foi minha primeira manifestação político/artística. Um evidente “protesto estético, canarvalesco de esquerda”, repleto de fúria juvenil, em sua simplicidade, ao mesmo tempo tendendo à uma postura anárquica e proto-punk.

O livro ao contrário simbolizava nitidamente minha frustração contra o sistema editorial brasileiro, deixando claro que, já naquela época, as coisas estavam “fora do lugar”.

A marcha desprovida de direção evidenciava minha oposição à ditadura militar instaurada que conduzia o país à lugar algum.

As sandalinhas de couro — herança do lado paterno —, representavam minha aliança de sangue com o norte do país e suas sub-regiões sofridas e esquecidas, tanto por Deus, quanto pelas autoridades governamentais.

A fralda descartável previa, inconscientemente, é claro, a quantidade de “fertilizante orgânico” à qual eu estaria submetido até o pescoço, caso realmente pretendesse escrever profissionalmente.

Já os estranhos e indecifráveis ruídos que eu produzia com a boca, eram apenas estranhos e indecifráveis ruídos que nada significavam, afinal eu tinha apenas três anos de idade e boa parte da capacidade de fala ainda me escapava ao controle.


Por favor, des-comente!

Um comentário:

  1. Loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido.

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