05 dezembro 2007

Carpe Diem uma ova, não aproveite o dia, vamos acabar com esta sociedade de virgens suicidas

É engraçado como certas coisas são encaradas com ingenuidade e pureza e que, mesmo não havendo má intenção, são na verdade nocivas quando fora do contexto.

A expressão carpe diem, por exemplo "colha o dia" ou "aproveite o dia" como se popularizou por aí, na verdade não é tão pura quanto parece.

A expressão surgiu na fase final e decadente do Império Romano onde o clima de fim do Império e fim do mundo como a sociedade romana o conhecia era o estado que realmente "imperava". A expressão está mais para: "nada importa, tudo vai pro espaço, relaxe e goze", do que para: " viva plenamente".

E não podemos esquecer que na sociedade romana só os homens e, homens livres, é que podiam realmente relaxar e gozar.

Existe ainda a questão ética, tanto de responsabilidade social quanto ambiental. Fica fácil entender porque todos só querem aproveitar o dia, afinal o que os profetas do Apocalipse estão nos dizendo? Eles dizem não haverá água potável, não haverá isso ou aquilo etc...

Agora pergunto: se todos estão por aí aproveitando o dia, quem, quem vai evitar que o pior aconteça? Se no mundo das "mauricinhas e dos patricinhos" onde todos os menininhos e menininhas criados à leite moça, confundem desejos com direitos, isto é, "se eu quero, eu tenho direito e papai tem que me dar se não ele não me ama", quem vai salvar essa joça?

Por isso uma sociedade de virgens suicidas. Por isso uma nova geração de menininhas e menininhos que só quer relaxar e gozar, uma geração que não acredita no futuro e bebe todo o presente até passar mal, ou até que a água bata na bunda, porque aí, meu amigo, ninguém é mais ateu.

Ao assistir recentemente a uma palestra com o filósofo paranaense Mário Sérgio Cortella, uma frase citada me chamou a atenção: "o mundo que daremos aos nosso filhos depende dos filhos que daremos ao nosso mundo".

Ao ouvi-la, o que pensei foi: estamos ferrados!

Sendo assim, então, aproveite o dia, porque afinal é tudo culpa dos nossos pais. Tudo está tranquilo enquanto "eu ainda sou o filho e hoje canto essa canção", mas... "o que cantarei depois?".

De repente você está com quarenta e não é mais o filho, ou pior, de repente você está com treze anos e e já não é mais o filho. E o que cantará depois?

Eu não quero apenas aproveitar o dia, eu sempre quis salvar o mundo, mesmo que, na maioria das vezes acabava por enfiar os pés pelas mãos. Passei a fase de ser herói, de querer ser bombeiro ou policial, pra salvar o bom e punir o mau, mas mesmo hoje acho que arriscaria minha vida pra salvar um estranho.

Quando li Daniel Quinn, pirei. Queria ter respondido àquele anuncio e ter sido aluno de Ismael.

Eu quero salvar o mundo, mesmo não sabendo como, mesmo não sabendo ao certo o que fazer.

Já faz um bom tempo, fui convidado por um professor amigo meu a falar sobre um de meus livros para um grupo de alunos e um deles me perguntou: "que mensagem você queria passar com o livro?". Nunca havia pensado sobre isso, até então. E acho que o que respondi foi: "não quis passar mensagem alguma, quis apenas contar uma história legal, espero ter conseguido", ou algo assim. Mas não é verdade. Hoje sei que não.

Em todas as minhas histórias há o herói que eu não fui. Acho que foi Stephen King quem disse ( ou pelo menos citou em A Hora do Vampiro [ pobre Ben Mears e pobre Mark Petrie ] ) que um livro é uma confissão de tudo o que o autor não fez. Em minhas histórias está presente o herói que eu não fui, por acaso ou incompetência, eu não sei. Mas essa é a mensagem.

Meu personagem principal morreria por você sem pensar duas vezes. Ele não espera agradecimentos, ele não sabe se vai ficar com mocinha no final ( e talvez não fique, provavelmente não, afinal tudo é nada no pequeno teatro dos horrores ), ele apenas faz o julga certo e aguenta as consequências.

Sempre quis escrever profissionalmente desde criança, não sei se sou bom o bastante, mas acho que é o que sei fazer de melhor. Recebi um e-mail de uma pessoa que me disse: "puxa, li seu livro na hora certa, era exatamente o que eu estava precisando, muito obrigado", mas era uma história de terror e, quer saber? Descobri que isso não importa. Descobri que essa pessoa encontrou o que precisa na história que escrevi, não sei como, nem onde, mas desconfio que sei em quem. No herói, ou melhor, no sacrifício do herói.

Talvez não precise muito para fazer algo pelo próximo afinal. Talvez você precise apenas continuar acreditando que o que você faz é importante a despeito do que as outras pessoas digam.

Talvez seja isso que posso fazer para salvar o mundo? Não sei. Posso estar errado e, ultimamente, na maioria das vezes parece que estou, mas acho que sei contar um história bacana, e agora sei qual a mensagem que tenho passado, mesmo inconscientemente. A mensagem do sacrifício do herói, e descobri que ela funciona pra mim, pois ainda quero ser melhor do que sou, ainda tento prezar pelo bom senso, ainda quero ser herói e com certeza não quero apenas aproveitar o dia.

Portanto, Carpe Diem uma ova, não aproveite o dia, vamos acabar com esta sociedade de virgens suicidas.

Já que dizem que a vida começa aos quarenta, então prepare um parto bem bonito, descubra o que você faz de melhor e comece a fazer. E não duvide, por mais difícil que possa ser, não desanime, por mais que os outros não entendam ( e a maioria não vai entender, acredite ), se você vier a cair ( e você vai cair, por mais vezes que pareça suportável ) levante e volte à prancheta. Tenha paciência, tenha disciplina, só você sabe o quanto pesa o seu sonho. Seja louco e ingênuo o quanto for necessário e por favor, pare de aproveitar o dia, pois ainda é tempo.

2 comentários:

  1. Quem escreve coisas assim faz bem mais pelos outros que imagina, quem escreve dá esperança, mesmo que numa história de terror!!
    Esperança que não existem apenas pessoas fúteis tentando ser a última bolacha do pacote, pessoas que querem e fazem o seu dia diferente... que fazem a vida acontecer!!
    No final a história apenas se lembrará de quem fez o mundo girar e nunca de quem ficou parado esperando as coisas acontecerem...

    "Tudo sempre pode ser um pouco melhor, se as coisas são ruins, melhor não tê-las.
    Viver o tempo todo esperando o pior é a meta pra quem quer ser mais ou menos.
    Dizer 'não via dar certo é só sentar e esperar, o tempo vai premiar os torcedores'
    Então sentem e esperem os tolos por que eu acho que as coisas serão melhores pra mim se eu não quiser nada mais ou menos!" Gabriel Thomaz

    http://umpunhadodeareia.blogspot.com/

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  2. Obrigado Ana, a gente faz o que pode quando quer, como disse François Rabelais: "Conheço muitos que não puderam quando deviam porque não quiseram quando podiam".

    Apareça sempre, grande abraço!

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