26 abril 2010

A Saída - João Anzanello Carrascoza


Aconteceu às quatro da tarde, em plena luz do dia. O menino estava lá, espichado como um gato, na rede em seu quarto. Caderno e lápis na mão, balançando suavemente, estava inventando uma história, quando viu pela janela o diabo pulando o portão de sua casa.

O diabo veio caminhando pelo jardim, em direção à porta, pisoteando as margaridas que se insinuavam ao vento. Na hora o menino pensou que o diabo, com seus poderes demoníacos, ia atravessar as paredes, mas ele simplesmente deu um sopro diabólico e seu bafo insuportável derreteu a porta instantaneamente. Depois, ao chegar ao quarto e ver o
menino apavorado na rede, deu um sorrisinho perverso e, exalando seu mau cheiro infernal, disse, diabolicamente:

– Vim te pegar garoto. Vou te levar pro inferno.

Mas aí, inesperadamente, o menino perdeu o medo.

Espichou-se então pela rede, todo belo e formoso, sem dar a mínima pro diabo.

– Você não pode me pegar – o menino disse.

– Posso – rugiu o diabo, avançando com sua cara de mau.

O menino retrucou:

– Não pode!

O diabo ficou mais endiabrado ainda e esbravejou:

– Por que não?

– Porque eu posso parar de escrever – disse o menino.

E parou.



João Anzanello Carrascoza. “A saída”. In: Revista nova escola. Fundação
Victor Civita, abril, 1991.

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